quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Desenvolvimento Humano e Psicomotricidade

 *Joana Soromenho e **Antonio Cesar Soromenho


Imagem: Créditos Pixabay


Os estudos em Psicomotricidade surgiram no final do Século XVIII, quando Itard, médico francês, ficou famoso pelo trabalho que desenvolveu com a reeducação de uma criança selvagem encontrada na cidade de Aveyron, França. Esta criança chamada de Víktor, foi encontrada com dez anos, tendo sido criada por lobos durante todo o seu desenvolvimento até então. Itard acreditava que os problemas de desenvolvimento apresentados pela criança tinham origem, não em fatores de ordem biológica e genética, mas no fato de não ter estado integrada na sociedade humana (FONSECA, 2008).

            Víktor durante os seus quarenta anos de vida é diagnosticado com idiotismo. Mesmo após trinta anos a ser estudado por médicos, nunca conseguiu,  apesar do treino diário, apresentar uma postura bípede, plantar os pés no chão, desenvolver uma comunicação oral adequada, comer com talheres, para além de várias outras funções que eram “expectáveis”, na época, para um adequado convívio em sociedade. Em função de todos esses comprometimentos e das dificuldades na aprendizagem de novos comportamentos, Víktor desenvolveu, a nível fisiológico, algumas características bem marcantes e visíveis tais como dentição para arrancar e rasgar a pele (como os lobos). Os estudos sobre o menino de Aveyron foram revolucionários para a sociedade inatista da época pois a partir daí surgiram novos estudos e conceitos como psiquismo, motricidade, estudos sobre o desenvolvimento humano passando da ação curativa para a ação psicodinâmica, que quebraram o dualismo mente/corpo. Os progressos obtidos por Viktor no processo de reeducação constituem, ainda hoje, um testemunho precioso.

            A História do desenvolvimento humano abrange os quatro grandes pilares da Psicomotricidade: a macro, oro, micro e grafomotricidade. Durante muito tempo fomos coletores, esperávamos os animais de maior porte saciarem e coletávamos os seus restos para podermos nos alimentar. Éramos de maior porte do que somos hoje. A nossa história de desenvolvimento se inicia na macromotricidade e, com o passar do tempo, houve uma maturação e desenvolvimento neurofisiológico tendo havido uma redução na caixa craniana e no porte físico. Surgiram, então, os movimentos finos e começamos a desenvolver instrumentos, a criar novas estratégias de planejamento de caça, fazer casas nas árvores e, com o uso desses recursos, passamos a ser mais efetivos em assegurar a nossa sobrevivência, alimentação, procriação, dando início assim à construção de comunidades o que representou o ponto de partida para o desenvolvimento da nossa  oromotricidade. O nosso aparelho oromotor foi evoluindo enquanto as formas de comunicação e o repertório de palavras e símbolos era ampliado. Foi através dessa evolução que começamos a escrever a nossa história nas paredes através da maturação e desenvolvimento da função psicomotora mais complexa que nos diferencia de fato de todos os outros animais, a grafomotricidade. Tudo isso ocorreu em função da maturação do nosso lobo frontal, hipotálamo, lobo parietal, occipital, glândula pituitária e tronco encefálico bem como do desenvolvimento do nosso córtex motor que envia as informações para a ação motora. Deste modo, a Psicomotricidade como intervenção denota a necessidade de mobilizar e reorganizar as funções psíquicas, relacionais, emocionais do indivíduo, em todo a sua dimensão desde, bebê até a fase adulta, melhorando a conduta consciente e o ato mental, onde está inerente a elaboração e execução do ato motor (COSTA, 2009).

            A psicomotricidade tem por base um grupo de autores europeus, russos e norte-americanos.  Entre os europeus destacam-se: Wallon, que define os prelúdios psicomotores do pensamento. Piaget, com a embriologia mental e motora. Ajuriaguerra, com a concepção do corpo e a organização psicomotora de base. Havendo contribuições científicas recentes que continuam esclarecendo questões da nossa área, tais como os estudos do português António Damásio.

            Os principais autores russos são: Vygotsky, perspectiva sócio-histórica da psicomotricidade. Luria, com a organização neurofuncional da psicomotricidade.  Bernstein, com a ideias sobre coordenação e regulação cibernética da psicomotricidade e Zaporozhets e Elkonin que classificam a evolução dos hábitos motores.

            Dentre os autores norte-americanos, destacam-se: Kephart, sobre aquisição e generalização motora; Cratty e a pirâmide do comportamento perceptivo motor. Getman, sobre o complexo visuomotor. Frostig, com as habilidades visuoperceptivas; Barsch e a teoria movigenética. Cruickshank que esclarece sobre disfunções perceptivomotoras e disfunção cerebral e por fim Ayres, com a teoria da integração sensorial.

            Na Avaliação e intervenção Psicomotora, o psicomotricista se propõe a intervir nos fatores classificados por Luria. Segundo Luria, existem sete fatores que trabalham em conjunto, de forma integrada, e que contribuem para a organização psicomotora global. A organização destes sete fatores acontece através de uma hierarquia vertical (FONSECA, 1995).

            tonicidade ocorre através de aquisições neuromusculares, conforto tátil e integração de padrões motores antigravídicos (muito presente do nascimento aos 12 meses); a equilibração se manifesta na aquisição da postura bípede, segurança gravitacional, e desenvolvimento de padrões locomotores (dos 12 meses aos 2 anos); a lateralização se dá através da integração sensorial, investimento emocional, desenvolvimento das percepções difusas e dos sistemas aferentes e eferentes (dos 2 aos 3 anos); a noção do corpo ocorre através da noção do Eu, conscientização corporal, percepção corporal, condutas de imitação (dos 3 aos 4 anos); a estruturação espaço temporal se manifesta por meio do desenvolvimento da atenção seletiva, do processamento de informações, coordenação espaço-corpo, proficiência da linguagem (dos 4 aos 5 anos); a praxia global ocorre através da coordenação oculomanual e oculopedal, planificação motora, integração rítmica (dos 5 aos 6 anos); a praxia fina através da concentração, organização, especialização hemisférica (dos 6 aos 7 anos).

            A intervenção Psicomotora pode ser aplicada em três modelos e contextos: o educativo que promove o desenvolvimento psicomotor e o potencial de aprendizagem; o reeducativo ou terapêutico que ultrapassa problemas que comprometam a adaptabilidade, o desenvolvimento, a aprendizagem e o preventivo que visa a estimulação do desenvolvimento, melhorias e manutenção das competências de autonomia.

            Quando falamos em intervenção, partimos do pressuposto que foi feita uma avaliação rigorosa das funções daquele indivíduo, um planejamento adequado para maximizar habilidades e potencialidades e minimizar dificuldades com objetivos bem específicos para cada caso. No entanto, como objetivos gerais, podemos classificar a intervenção psicomotora com os objetivos de mobilizar e reorganizar as funções psíquicas, relacionais, emocionais do indivíduo, em toda a sua dimensão durante toda a vida; melhorar a conduta consciente e o ato mental, onde está inerente a elaboração e execução do ato motor; fazer com que as sensações e as percepções passem a níveis de consciencialização, simbolização e conceptualização; harmonizar e aumentar o desenvolvimento global da personalidade e de adaptabilidade social, ou seja, o potencial motor, afetivo-relacional e cognitivo e fazer do corpo uma síntese integradora da personalidade onde ocorre harmonia entre as relações do psíquico e da globalidade motora.

            Concluindo, “A aprendizagem humana começa por ser motora: macro, micro, oro, grafo e sociomotora. Antes de aprender a ler, escrever e calcular, todo o ser humano precisa integrar psiquicamente ou superiormente as experiências motoras e espaciais. Sem tal organização e orientação, as dificuldades de aprendizagem tem mais probabilidade de ocorrer, o que é confirmado pelos diversos autores que citamos.” (FONSECA; OLIVEIRA, 2009).

  

Referências:

FONSECA, V. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.

COSTA, D. F. Psicomotricidade na educação infantil. 2009. Disponível em: https://semanaacademica.org.br/system/files/artigos/psicomotricidade_na_educacao_infantil_0.pdf. Acesso em: 27 abr. 2019.

FONSECA, Vitor; OLIVEIRA, Joana. ”Aptidões Psicomotoras e de Aprendizagem”. Ed. Âncora, 2009, p.24.

 

Autores:

*Joana Soromenho de Oliveira (Pedagoga, Psicomotricista, Psicopedagoga). Licenciatura em Pedagogia – Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Brasil. Pós-gradução em Psicopedagogia EPCE- Teresina, PI, Brasil. Certificado Internacional de Psicomotricidade – CISTC no Institut Supérieur de Rééducation Psychomotrice ISRP, Organisation Internationale de Psychomotricité et de Relaxation, OIPR, Paris, França.Especialista em Educação Especial pela FMH-Universidade Técnica de Lisboa, Portugal.

 **Antonio Cesar Soromenho Santos de Oliveira (Psicólogo CRP 21/04062. Especialista em Psicomotricidade com Ênfase em Educação Especial – IMPAR. Especializando em Neuropsicologia – IPOG. Professor de Orientação Profissional. Sócio da Clínica Soromenho. Membro da comissão de Psicologia do Esporte CRP-21. Idealizador do Modelo TEA Jutsu.

 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Traumas e suas repercussões na personalidade

*Por Eleonardo Rodrigues

 

O estudo da personalidade motiva a atenção tanto da população em geral quanto do mundo acadêmico. No campo das psicoterapias e recente surgimento das neurociências há um esforço de melhor compreensão terapêutica da fenomenologia da personalidade circundando o entendimento harmonioso dos conceitos de traços, temperamento e caráter quando desadaptados do limite do sujeito, favorecem os respectivos transtornos de personalidade.

A Personalidade é construída dinamicamente com os construtos do temperamento e caráter. O temperamento refere-se à parte mais inata e instintiva, com raízes no comportamento biológico. Existem evidências de que certos tipos de temperamento e padrões comportamentais estão presentes desde o nascimento. Tais características favorecem tendências que podem ser ampliadas ou diminuídas de acordo com a experiência do indivíduo.

O caráter constitui o conjunto das disposições individuais considerado em seu possível desenvolvimento psicossocial, aprendido no meio ambiente que influem na personalidade, ou seja, ele representa uma maneira de ser potencial, dinâmica, voltada para o futuro (Rodrigues, 2010).

O conceito de personalidade, por outro lado, envolve um estilo de vida multidimensional no qual as tendências inatas do indivíduo interagem com o meio ambiente para produzir sentimentos, pensamentos e comportamentos de uma perspectiva subjetiva.

De acordo com Beck (2005), os padrões estáveis que constituem a personalidade refletem estratégias que foram construídas na adaptação do sujeito ao mundo. Na interação com o contexto e figuras de referência, o indivíduo desenvolve maneiras de se adaptar, em um processo contínuo de aprendizagem.

Concepções primitivas e primárias são formadas. Fatores genéticos também atuam, mas podem ser exacerbados ou minimizados dependendo das interações com o ambiente. As experiências de tenra infância são importantíssimas, pois são as fontes dos primeiros esquemas mentais. Essa aprendizagem terá forte influência determinante sobre o modus operandi do sujeito. Ao longo da vida, novos esquemas podem ser formados e antigos podem ser reformulados.

Créditos: Pixaby

O que é trauma?

Trauma constitui prejuízo e estado mental ou comportamental desorganizados, causados por estresse psicológico ou físico, relacionados a eventos que provoquem medo agudo ou crônico. Corroboram com essa ideia difundida de forma incipiente sobre trauma e memória na etiologia da histeria, Martin Charcot, Pierre Janet e Sigmund Freud, no final do século XIX, os mesmo argumentam que o trauma psicológico é resultante de uma situação vivenciada, testemunhada ou confrontada pelo indivíduo, na qual houve ameaça à vida ou à integridade física e/ou psicológica de si próprio ou de pessoas a ele ligadas (Rodrigues, 2010).

Abuso ou maus-tratos em crianças estão associados a um risco substancialmente aumentado de psicopatologia na adolescência e vida adulta. Assim, diferentes aspectos estão envolvidos na sintomatologia do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), tal como: a natureza do evento traumático, o número de exposições, a vulnerabilidade do indivíduo e a reação desse frente ao estressor, a rede de proteção após o evento.

Maus-tratos são um fenômeno complexo, que se manifesta em contextos de pobreza familiar, conhecimento e habilidade inadequada dos pais em relação ao desenvolvimento e cuidado infantil, interrupções nas relações pais-filhos, funcionamento psicológico parental comprometido.

Efeito do trauma no cérebro

Andreasen (2005) e Rodrigues et al. (2011), sugerem que o TEPT é um exemplo claro da influência das experiências psicológicas sobre as reações neurobiológicas.

A exposição a traumas desencadeia uma série de eventos que influenciam as vias cerebrais de alerta por meio da amígdala; a liberação de adrenalina e cortisol pode produzir lesões no hipocampo. De acordo com Rodrigues (2010), estudos confirmam que indivíduos maltratados tem maior prevalência em transtornos depressivos, ansiosos e por uso de substâncias, maior risco de suicídio e pior resposta ao tratamento do que indivíduos não maltratados com os mesmos diagnósticos.

Tratamento

            Do ponto de vista terapêutico, diante de um paciente que vivenciou trauma significativo, é preciso focar o tratamento no apoio e encorajamento para a discussão do evento traumático. É útil educá-lo com relação aos mecanismos de manejo de afetos, cognições e comportamentos. As psicoterapias são uma alternativa viável para esses fins. Além de suas fundamentações filosóficas, podem ser utilizadas técnicas como a exposição ao evento estressor e relaxamento.  

            Em relação as intervenções preventivas, sugerem-se intervenções de curto prazo logo em seguida ao nascimento, focada no aumento da autoconfiança dos pais e intervenções realizadas por profissionais especializados.  Para intervenções de modificação do trauma, focar na melhoria das habilidades parentais e intervenções que fornecem suporte social e emocional.  

            Contudo, todos nós estamos sujeitos ou fomos sujeitos a situações traumáticas. Negar esse evento para os outros não esconderá de você. Você não é culpado pelo ocorrido. Há uma tendência de as pessoas mais velhas reassegurarem que passaram por situações difíceis e não se traumatizaram, mas não percebem e nem aceitam que alguns de seus comportamentos atuais são reações frente aos traumas. O perdão é uma atitude nobre que pode nos libertar. A terapia é um lugar seguro que possibilitará uma mudança na forma de você sentir e pensar sobre o trauma e utilizar recursos mais significativos para a mudança necessária.

 

 

Para aprofundamento veja as referências e assista ao bate-papo em forma de live em meu canal no Instagram: @eleonardorodrigues.

 

Referências:

 

Andreasen, N. C. (2005). Admirável cérebro novo: vencendo a doença mental na era do genoma. Trad. Ronaldo Cataldo Costa. Artmed.

Beck, A. T. Teoria dos transtornos da personalidade. In: Beck, A. T.; Freeman, A.; Davis, D. D. (2005). Terapia Cognitiva dos Transtornos da Personalidade; trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. 2.ed. Artmed.

Rodrigues, Eleonardo Pereira. Volume do hipocampo no transtorno de personalidade Bordeline com e sem transtorno de estresse pós-traumático: revisão sistematica e metanálise. (2010). 77f. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Medicina. Curso de Pós-Graduação em Medicina e Saúde. Salvador – BA.    

Rodrigues, E., Wenzel, A., Ribeiro, M. P., Quarantini, L. C., Miranda-Scippa, A., de Sena, E. P., & de Oliveira, I. R. (2011). Hippocampal volume in borderline personality disorder with and without comorbid posttraumatic stress disorder: a meta-analysis. European psychiatry: the journal of the Association of European Psychiatrists26(7), 452–456. https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2010.07.005.


sábado, 31 de outubro de 2020

Luto e Pandemia

Por Eleonardo Rodrigues


A pandemia veio como um oponente forte e nos nocauteou em nosso ego, antecipando de forma drástica nossa forma de conviver, viver e morrer. O ditado popular: “A única certeza que temos da vida é a morte” tornou-se um imperativo de alta probabilidade para negacionistas e uma atitude de resiliência para os esperançosos e amantes da vida.

Imagem: Pixabay.com

Esses oito meses de isolamento e/ou distanciamento social nos convidou a nos reinventarmos dentro de um processo histórico em andamento...onde crenças foram ressignificadas pela quase morte e morte de entes queridos. Há quem mudou suas crenças nucleares empaticamente pelo sofrimento do outro mundialmente, há quem quase morreu e não aprendeu a lição e segue na sua idiossincrasia. Portanto, não devemos esquecer que coisas ruins acontecem com boas pessoas e que a natureza segue seu compasso suave e bela quando respeitada e, avassaladora e trágica quando desrespeitada.  


Contudo, o amor, o perdão, o bom senso, a fé, constituem alimentos afetivos fundamentais para os que ficam e reaprendem com humildade e serenidade a aventura e a graça que é o viver. Mas, quando e apesar do suporte dessa rede afetiva você ainda sofre muito adoecendo física e emocionalmente, a sugestão é buscar ajuda profissional.


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Colocaram um feitiço em você?!

 I Put a Spell on you/Eu Coloquei Um Feitiço Em Você (Nina Simone)

Fonte: https://www.vagalume.com.br/nina-simone/i-put-a-spell-on-you-traducao.html

 

Eu coloquei um feitiço em você

Por que você é meu

 

É melhor você parar de fazer o que faz

Eu não minto

Não, eu não minto

 

Você sabe que eu não suporto mais

Você está dando desculpas

Você bem sabe

Que eu não posso suportar

porque você me derruba

 

Eu coloquei um feitiço em você

Por que você é meu

Você é meu

 

Eu amo você

Eu amo você

Eu amo você

Eu amo você de qualquer jeito

E eu não ligo

Se você não me quer

Porque eu sou sua agora

 

Você me ouviu

Eu coloquei um feitiço em você

Por que você é meu

 


     Que linda canção composta por Jalacy Hawkins, lançada em junho de 1965,  na voz estrondosa da magnifica Nina Simone. E você está enfeitiçado(a) pelas redes sociais? Será que o que você pensa é mesmo tudo de sua autoria com influências saudáveis, mas subliminarmente misturadas com ideologias manipulativas? Às vezes nossas crenças podem ser irracionais! Vejamos: Tudo se trata hoje com um passo de mágica virtual, tudo se resolve, basta seguir tal tutorial, será? Há problemas que resolvemos em curto prazo, outros em médio, alguns ao longo e outros talvez não se resolvam, pois muitos fazem parte de nossa biografia biopsicossocial da inalienável aceitação de si. 

     A sociedade do espetáculo nos seduz com a embriaguez do excesso de exposição. Ah, como é bom ser curtido, ter milhares de seguidores, meu sistema de recompensa cerebral vibra e fica super excitado: quero mais, quero mais, quero mais...não consigo parar...Então, aonde você se perdeu no meu do caminho? Será que fui enfeitiçado por um lobo na pele de cordeiro? Estou conseguindo ver mais claramente que toda essa exposição é boa, mas devo ter senso crítico? Devo filtrar e não reforçar likes e curtidas manipulativas por mais sedutoras e legais que se apresentem? Pensar sobre nosso próprio pensamento de forma crítica é partimos de uma tese, saber qual sua antítese e chegamos a uma síntese com bom senso. Tais inquietações desse feitiço foram feitas semelhantemente na idade média, revolução industrial, pós-modernidade e agora na pós-verdade. De que lado você quer estar? Do lado da alienação de massa com direito ao meu deleite histriônico ou do lado de que ninguém ou nada sozinho é uma panaceia?

     Espero ter começado a despertar você do transe desse feitiço dos algoritmos das redes sociais que tem a pretensão de vender tudo por um preço de custo barato mexendo com nossas emoções que na grande maioria das vezes não sabemos a qualidade de seu conteúdo mental privado que o antecede e o determina, mas é bem estudado pelos manipuladores das vendas e do mercado que acreditam e provam que temos um preço e somos presas fáceis quando não pensamos em coletivo de forma responsável e com autocrítica. 

     Queres continuar enfeitiçado? Não? Então sugiro assistir ao documentário “O dilema das redes”.



Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ua2k52n_Bvw

Gravadora Philips Records em 1964-1965.

sábado, 17 de outubro de 2020

Estimulação Cerebral Profunda no Tratamento do Mal de Parkinson

 

O tratamento da doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento com estimulação cerebral profunda (DBS) envolve a colocação de um pequeno dispositivo (chamado neuroestimulador) no corpo para fornecer minúsculos impulsos elétricos a condutores (fios) no cérebro. Esses impulsos corrigem a atividade cerebral que causa tremores e movimentos involuntários associados à doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento. Os benefícios são geralmente visíveis imediatamente após o paciente acordar da cirurgia e o neuroestimulador ser ligado.

Os pesquisadores estão explorando aplicações para estimulação cerebral profunda além do tratamento para a doença de Parkinson. É assim que funciona. Gráfico: Adele Morgan / The Wall Street Journal. Vejam ao vídeo do WSJ.

 Link dos vídeos:




Fonte: Hospital Albert Einstein

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Encerramento da chamada do Laboratório de Neurociência Cognitiva - LabonC

 

É com satisfação que atingimos a quantidade ideal de pessoas interessadas para o primeiro projeto do LaboNC.

A partir de hoje a chamada do LaboNC se encerra.

Acompanhe o blog para as próximas chamadas no próximo ano.

 

Atenciosamente,

 

Prof. Eleonardo Rodrigues

Coordenador do LaboNC.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Medo, Ansiedade e Terapia Cognitiva


Por *João Damasceno Neto


Créditos: Pixabay.com

 

Medo e ansiedade são experiências comuns à humanidade por ter servido à sobrevivência dos indivíduos e consequentemente da espécie. Pesquisadores diversos apresentam conceitos diferentes para medo e ansiedade. Beck e Clarck estabelecem que o medo é uma reação primária, automática, pré-consciente e involuntária a um perigo iminente, envolvendo aspectos atencionais, perceptivos, fisiológicos e comportamentais. A ansiedade é uma experiência mais complexa porque inclui elementos conceituais além de se reportar ao porvir, está implicada, portanto, com uma previsão do que acontecerá.

            As experiências de medo estão intimamente relacionadas com nossa filogenia, por isso podem ser consideradas primárias. Beck e Clarck, na revisão que fizeram da teoria cognitiva da ansiedade, consideraram útil para a explicação desse processo, falar de um modo de funcionar do organismo humano que batizou de modo de orientação. Modo é um conjunto de esquemas integrados, simultâneos, retroalimentativos e automáticos acionado frente a eventos vivenciados por uma pessoa. Modo de orientação é um conjunto de esquemas que rastreia os ambientes externo e interno. Com esse modo o sujeito busca identificar sinais negativos, positivos ou neutros, ou seja, suas valências e também sua intensidade como forte ou grave, intermediária, fraca ou amena.

            As características do funcionamento automático e pré-consciente do modo de orientação têm respaldo em achados de neurocientistas que pesquisaram as emoções e os processos neurofisiológicos envolvendo o sistema límbico. Aqui destaco os trabalhos de LeDoux, Davis, Anderson, Phelps entre outros. Esses pesquisadores descobriram que os processos sensoriais partem dos órgãos dos sentidos, como olhos e ouvidos, e enviam as informações para o tálamo. Esse órgão faz uma rápida avaliação pré-consciente e envia as informações para a amígdala por via direta e rápida. A amígdala é um órgão importante para a produção das reações subjetivas e objetivas do medo e da ansiedade. Nesse sentido, o construto cognitivo de modo de orientação tem apoio de duas fontes de conhecimentos diferentes: a ciência evolutiva e a neurociência.

            O modo de orientação, por fatores genéticos, pode ser mais sensível a detectar sinais negativos, predispondo o indivíduo a transtornos de ansiedade. Essa vulnerabilidade não é o único fator determinante desse tipo de problema psicológico. Outro modo de funcionamento primitivo, pré-consciente, automático e involuntário é acionado pelo modo de orientação, denominado modo de ameaça. O modo de ameaça é constituído por esquemas cognitivos conceituais de ser fraco quanto à ameaça e expectativas catastróficas; esquemas fisiológicos típicos de ansiedade; esquemas comportamentais de luta, fuga, esquiva ou congelamento; esquemas motivacionais básicos e psicossociais como metas e intenções e esquemas afetivos ansiogênicos.

            Esse modo funcional primitivo, acionado automaticamente pela detecção de sinais negativos pelo modo de orientação, produz consequências perpetuadoras dos estados de ansiedade, através dos vários esquemas supracitados: O esquema cognitivo induz a pensamentos automáticos e distorções cognitivas que maximiza o perigo e a catástrofe e minimiza o potencial do sujeito, interpretando o evento de forma irrealista, bem como a fisiologia e os sentimentos como provas da grandeza da ameaça e fragilidade para o enfrentamento. As distorções referem-se a um tipo de processamento de informação vicioso que não leva em conta todos os dados relevantes da realidade para determinada situação, É o que ocorre com a maximização dos fatos que confirmam o perigo e minimização daqueles que o redimensionariam para dimensão mais realista, ao reduzir os recursos pessoais e sociais de enfrentamento. Há muitos outros processamentos que distorcem a realidade. O esquema fisiológico leva à excitação das reações autonômicas. O esquema comportamental seleciona respostas inibitórias e defensivas de fuga ou esquiva. Essas respostas impedem que o sujeito cunhe fatos que contrariem suas crenças e pensamentos automáticos.

            A questão que se levanta é: se o modo de orientação é considerado universal por ser uma herança evolutiva importante para a sobrevivência, mas por questões genéticas ou congênitas pode estar enviesado para a detecção de sinais negativos, sendo capaz de subitamente acionar o modo primitivo de ameaça que também se desencadeia de forma pré-consciente, involuntária, reflexa e rápida, de tal maneira que é quase simultâneo ao modo de orientação, qual é mesmo o papel da terapia cognitiva nos transtornos de ansiedade?

            A resposta a essa questão envolve a capacidade humana de reavaliar os eventos externos e internos, ou seja, reexaminar percepções, pensamentos e conclusões iniciais rápidas através de um processo secundário mais lento, reflexivo, voluntário, mais trabalhoso e elaborado. A psicologia cognitiva classifica esse processo secundário de metacognitivo, uma vez que as cognições iniciais como as percepções e os pensamentos automáticos serão revisados por cognições mais complexas que levam em conta a coerência lógica e um maior número de fatos relevante para uma conclusão mais próxima da realidade. Esse uso do raciocínio lógico é semelhante ao usado pelos cientistas na produção das várias ciências, no entanto é bastante possível de ser usado pela maioria de nós mesmo no dia-a-dia.

            Na verdade, o exame secundário dos medos e ansiedades que nós sentimos a partir do modo de orientação e do modo primitivo de ameaça sempre ocorrem. A forma como essa avaliação é feita é que fará grande diferença quanto ao resultado numa forma mais realista e funcional de lidar com essas emoções e com o mundo ou na consolidação e perpetuação de um transtorno de ansiedade específico. A neurociência também corrobora com esse construto cognitivista. Os mesmos pesquisadores da neuropsicologia das emoções referenciados acima também afirmam que dos órgãos dos sentidos, as informações ao chegarem ao tálamo também fazem um trajeto mais longo antes de chegar à amígdala, conhecido como via indireta. Isto é, ao chegar ao tálamo, as informações atingem o córtex sensório-perceptivo correspondente onde são analisadas e avaliadas pormenorizadamente para então atingirem a amígdala. Trata-se de um caminho mais longo. Esse trajeto inclui também o córtex pré-frontal, importante para o raciocínio e na ação inibitória à hiperativação da amígdala.

            Caso o exame secundário seja fortemente prejudicado pelo modo de orientação e pelo modo primitivo de ameaça, seu resultado não adquire plausibilidade e por isso não consegue fazer frente àqueles modos superativados. Isso prejudica uma avaliação mais realista das capacidades pessoais de enfrentamento o que pode fazer o sujeito se esquivar ou agir de modo hesitante, produzindo resultados ruins que confirmam os esquemas. Nessa situação em que submetemos o exame secundário consciente a esses modos, tendemos a buscar sinais de segurança que reduzem imediatamente a ansiedade, sem desenvolver formas eficazes de enfrentamento. Esse processo também perpetua a ansiedade, pois o sujeito confirma continuamente que o evento é perigoso e não percebe e nem desenvolve suas estratégias eficazes de enfrentamento, mantendo seu autoconceito negativo.

            Respondendo mais diretamente ao questionamento feito acima. A terapia cognitiva pretende agir nesse processo de exame secundário, por se tratar de um processo metacognitivo, consciente, voluntário, elaborado e que pode ser aprendido e utilizado sempre que processos de ansiedade, depressão, agressividade, indecisão e outros problemas psicológicos nos assolem. Essas estratégias de enfrentamento ensinadas e vivenciadas na terapia cognitiva atualmente assumem caráter cognitivo, comportamental, relacional, fisiológico e emocional e estão baseadas em evidências. A terapia cognitiva pode anexar práticas terapêuticas como mindfulness e técnicas oriundas de outras abordagens, desde que devidamente adaptadas ao modelo cognitivo. Todas as estratégias, não obstante seu caráter ou origem, necessitam ter como selo unificador o fato de produzirem mudanças em crenças, esquemas, pensamentos e no processamento de informações. Dessa forma a terapia cognitiva assume seu caráter integrador, preconizado por Beck.

 

Referências:

CLARCK, D. A.; BECK, A. T. Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade. Porto Alegre: Artmed, 2012.

DOBSON, DOBSON, A terapia cognitivo-comportamental baseada em evidências. Porto Alegre: Artmed, 2020.

PLISZKA, S. R. Neurociência para o clínico de saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2004.

WENZEL, A. Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa. Porto Alegre: Artmed, 2020.

 

*Psicólogo pela UNAMA. Mestre em Educação pelo IPLAC/UESPI. Especialista em Neuropsicologia pela UNINTER. Professor Efetivo do Curso de Psicologia da UESPI. Coordenador do Serviço Escola de Psicologia da UNIFSA.