sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Medo, Ansiedade e Terapia Cognitiva


Por *João Damasceno Neto


Créditos: Pixabay.com

 

Medo e ansiedade são experiências comuns à humanidade por ter servido à sobrevivência dos indivíduos e consequentemente da espécie. Pesquisadores diversos apresentam conceitos diferentes para medo e ansiedade. Beck e Clarck estabelecem que o medo é uma reação primária, automática, pré-consciente e involuntária a um perigo iminente, envolvendo aspectos atencionais, perceptivos, fisiológicos e comportamentais. A ansiedade é uma experiência mais complexa porque inclui elementos conceituais além de se reportar ao porvir, está implicada, portanto, com uma previsão do que acontecerá.

            As experiências de medo estão intimamente relacionadas com nossa filogenia, por isso podem ser consideradas primárias. Beck e Clarck, na revisão que fizeram da teoria cognitiva da ansiedade, consideraram útil para a explicação desse processo, falar de um modo de funcionar do organismo humano que batizou de modo de orientação. Modo é um conjunto de esquemas integrados, simultâneos, retroalimentativos e automáticos acionado frente a eventos vivenciados por uma pessoa. Modo de orientação é um conjunto de esquemas que rastreia os ambientes externo e interno. Com esse modo o sujeito busca identificar sinais negativos, positivos ou neutros, ou seja, suas valências e também sua intensidade como forte ou grave, intermediária, fraca ou amena.

            As características do funcionamento automático e pré-consciente do modo de orientação têm respaldo em achados de neurocientistas que pesquisaram as emoções e os processos neurofisiológicos envolvendo o sistema límbico. Aqui destaco os trabalhos de LeDoux, Davis, Anderson, Phelps entre outros. Esses pesquisadores descobriram que os processos sensoriais partem dos órgãos dos sentidos, como olhos e ouvidos, e enviam as informações para o tálamo. Esse órgão faz uma rápida avaliação pré-consciente e envia as informações para a amígdala por via direta e rápida. A amígdala é um órgão importante para a produção das reações subjetivas e objetivas do medo e da ansiedade. Nesse sentido, o construto cognitivo de modo de orientação tem apoio de duas fontes de conhecimentos diferentes: a ciência evolutiva e a neurociência.

            O modo de orientação, por fatores genéticos, pode ser mais sensível a detectar sinais negativos, predispondo o indivíduo a transtornos de ansiedade. Essa vulnerabilidade não é o único fator determinante desse tipo de problema psicológico. Outro modo de funcionamento primitivo, pré-consciente, automático e involuntário é acionado pelo modo de orientação, denominado modo de ameaça. O modo de ameaça é constituído por esquemas cognitivos conceituais de ser fraco quanto à ameaça e expectativas catastróficas; esquemas fisiológicos típicos de ansiedade; esquemas comportamentais de luta, fuga, esquiva ou congelamento; esquemas motivacionais básicos e psicossociais como metas e intenções e esquemas afetivos ansiogênicos.

            Esse modo funcional primitivo, acionado automaticamente pela detecção de sinais negativos pelo modo de orientação, produz consequências perpetuadoras dos estados de ansiedade, através dos vários esquemas supracitados: O esquema cognitivo induz a pensamentos automáticos e distorções cognitivas que maximiza o perigo e a catástrofe e minimiza o potencial do sujeito, interpretando o evento de forma irrealista, bem como a fisiologia e os sentimentos como provas da grandeza da ameaça e fragilidade para o enfrentamento. As distorções referem-se a um tipo de processamento de informação vicioso que não leva em conta todos os dados relevantes da realidade para determinada situação, É o que ocorre com a maximização dos fatos que confirmam o perigo e minimização daqueles que o redimensionariam para dimensão mais realista, ao reduzir os recursos pessoais e sociais de enfrentamento. Há muitos outros processamentos que distorcem a realidade. O esquema fisiológico leva à excitação das reações autonômicas. O esquema comportamental seleciona respostas inibitórias e defensivas de fuga ou esquiva. Essas respostas impedem que o sujeito cunhe fatos que contrariem suas crenças e pensamentos automáticos.

            A questão que se levanta é: se o modo de orientação é considerado universal por ser uma herança evolutiva importante para a sobrevivência, mas por questões genéticas ou congênitas pode estar enviesado para a detecção de sinais negativos, sendo capaz de subitamente acionar o modo primitivo de ameaça que também se desencadeia de forma pré-consciente, involuntária, reflexa e rápida, de tal maneira que é quase simultâneo ao modo de orientação, qual é mesmo o papel da terapia cognitiva nos transtornos de ansiedade?

            A resposta a essa questão envolve a capacidade humana de reavaliar os eventos externos e internos, ou seja, reexaminar percepções, pensamentos e conclusões iniciais rápidas através de um processo secundário mais lento, reflexivo, voluntário, mais trabalhoso e elaborado. A psicologia cognitiva classifica esse processo secundário de metacognitivo, uma vez que as cognições iniciais como as percepções e os pensamentos automáticos serão revisados por cognições mais complexas que levam em conta a coerência lógica e um maior número de fatos relevante para uma conclusão mais próxima da realidade. Esse uso do raciocínio lógico é semelhante ao usado pelos cientistas na produção das várias ciências, no entanto é bastante possível de ser usado pela maioria de nós mesmo no dia-a-dia.

            Na verdade, o exame secundário dos medos e ansiedades que nós sentimos a partir do modo de orientação e do modo primitivo de ameaça sempre ocorrem. A forma como essa avaliação é feita é que fará grande diferença quanto ao resultado numa forma mais realista e funcional de lidar com essas emoções e com o mundo ou na consolidação e perpetuação de um transtorno de ansiedade específico. A neurociência também corrobora com esse construto cognitivista. Os mesmos pesquisadores da neuropsicologia das emoções referenciados acima também afirmam que dos órgãos dos sentidos, as informações ao chegarem ao tálamo também fazem um trajeto mais longo antes de chegar à amígdala, conhecido como via indireta. Isto é, ao chegar ao tálamo, as informações atingem o córtex sensório-perceptivo correspondente onde são analisadas e avaliadas pormenorizadamente para então atingirem a amígdala. Trata-se de um caminho mais longo. Esse trajeto inclui também o córtex pré-frontal, importante para o raciocínio e na ação inibitória à hiperativação da amígdala.

            Caso o exame secundário seja fortemente prejudicado pelo modo de orientação e pelo modo primitivo de ameaça, seu resultado não adquire plausibilidade e por isso não consegue fazer frente àqueles modos superativados. Isso prejudica uma avaliação mais realista das capacidades pessoais de enfrentamento o que pode fazer o sujeito se esquivar ou agir de modo hesitante, produzindo resultados ruins que confirmam os esquemas. Nessa situação em que submetemos o exame secundário consciente a esses modos, tendemos a buscar sinais de segurança que reduzem imediatamente a ansiedade, sem desenvolver formas eficazes de enfrentamento. Esse processo também perpetua a ansiedade, pois o sujeito confirma continuamente que o evento é perigoso e não percebe e nem desenvolve suas estratégias eficazes de enfrentamento, mantendo seu autoconceito negativo.

            Respondendo mais diretamente ao questionamento feito acima. A terapia cognitiva pretende agir nesse processo de exame secundário, por se tratar de um processo metacognitivo, consciente, voluntário, elaborado e que pode ser aprendido e utilizado sempre que processos de ansiedade, depressão, agressividade, indecisão e outros problemas psicológicos nos assolem. Essas estratégias de enfrentamento ensinadas e vivenciadas na terapia cognitiva atualmente assumem caráter cognitivo, comportamental, relacional, fisiológico e emocional e estão baseadas em evidências. A terapia cognitiva pode anexar práticas terapêuticas como mindfulness e técnicas oriundas de outras abordagens, desde que devidamente adaptadas ao modelo cognitivo. Todas as estratégias, não obstante seu caráter ou origem, necessitam ter como selo unificador o fato de produzirem mudanças em crenças, esquemas, pensamentos e no processamento de informações. Dessa forma a terapia cognitiva assume seu caráter integrador, preconizado por Beck.

 

Referências:

CLARCK, D. A.; BECK, A. T. Terapia cognitiva para os transtornos de ansiedade. Porto Alegre: Artmed, 2012.

DOBSON, DOBSON, A terapia cognitivo-comportamental baseada em evidências. Porto Alegre: Artmed, 2020.

PLISZKA, S. R. Neurociência para o clínico de saúde mental. Porto Alegre: Artmed, 2004.

WENZEL, A. Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa. Porto Alegre: Artmed, 2020.

 

*Psicólogo pela UNAMA. Mestre em Educação pelo IPLAC/UESPI. Especialista em Neuropsicologia pela UNINTER. Professor Efetivo do Curso de Psicologia da UESPI. Coordenador do Serviço Escola de Psicologia da UNIFSA.

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